Seminário da Santa Cruz dos Missionários Passionistas
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Santa Maria da Feira, Portugal
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Ano B – XXXIV Domingo do Tempo Comum – Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

1ª Leitura: Dan 7, 13-14;
Salmo: Sal 92, 1ab. 1c-2. 5;
2ª Leitura: Ap 1, 5-8;
Evangelho: Jo 18, 33b-37.

 

No último domingo do ano litúrgico, como a dizer que toda a história está orientada para Cristo, celebramos a Solenidade de Cristo Rei. 

A presente festa foi instituída por Pio XI, em 1925. Viviam-se tempos difíceis: o pós primeira guerra mundial, o ateísmo, a secularização, o laicismo… Como tentativa de promoção do reino social de Cristo, ou seja, de promover a militância católica e de ajudar a sociedade a revestir-se dos valores cristãos foi instituída esta festa que até à reforma litúrgica se celebrava no último domingo de Outubro. Com a reforma litúrgica pós-conciliar esta festa passou a celebrar-se no último domingo do ano litúrgico e a ter um sentido universal, escatológico e espiritual. 

Quando falamos de reis e de realeza recordamo-nos logo de poder, dinheiro, festas sociais, prestígio, guerras e domínio. É óbvio que não é esta a acepção de realeza que nós atribuímos a Jesus. Jesus é rei mas não um rei à maneira humana: “o meu reino não é deste mundo”. Aproximemo-nos das leituras que a Liturgia da Palavra nos oferece e descubramos o verdadeiro sentido da realeza de Jesus, o modo como Jesus exerce a sua realeza. 

A primeira leitura deste dia é retirada do livro de Daniel e apresenta-nos a promessa da intervenção de Deus na história do mundo, marcada pela opressão, pela violência e pelas injustiças. Tal intervenção, segundo a profecia de Daniel, realizar-se-á através do “Filho de Homem” que virá sobre as nuvens, de origem transcendente, pertencente ao mundo de Deus, e que há-de instaurar o reino de Deus sobre a terra: “Foi-lhe entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos, nações e línguas O serviram. O seu poder é eterno, não passará jamais, e o seu reino não será destruído”. É a promessa do Messias de Deus que irá intervir na história humana ao instaurar o reino de Deus e ao terminar com todos os reinos que oprimem e destroem o homem. Tal promessa deve reavivar a esperança e a fidelidade de todos aqueles que se vêem vítimas de reinos inumanos. 

E, como nos recordava a segunda leitura deste dia, retirada do Apocalipse de S. João, nós sabemos que este filho do Homem que virá sobre as nuvens, este messias de Deus é o Senhor Jesus: “Jesus Cristo … Ei-l’O que vem entre as nuvens, e todos os olhos O verão, mesmo aqueles que O trespassaram”. A segunda leitura deste dia é a interpretação cristã da figura do “Filho de Homem” apresentada na primeira leitura do Livro de Daniel. É o Senhor Jesus Crucificado o Messias de Deus. 

Sim, o nosso Rei é o Senhor Crucificado. A sua coroa não é uma coroa de ouro e de pedras preciosas mas de espinhos. O seu manto não é de tecido fino mas um farrapo escarlate. O seu ceptro não é o ceptro de um dominador implacável mas uma cana. O seu trono, donde exerce o seu poder e a sua justiça, não é uma confortável cadeira mas a Cruz. E para nos manifestar com mais claridade que é Jesus e Jesus Crucificado o nosso rei, o evangelho que nos é oferecido neste dia é uma das cenas da Paixão e Morte de Jesus segundo o evangelista João. O evangelho deste dia é uma parte do interrogatório de Jesus por parte de Pôncio Pilatos. 

Depois de Jesus ter sido conduzido a Anás, depois de Jesus se ter confrontado com as autoridades judaicas, Jesus é levado a Pôncio Pilatos, o governador da Judeia de então. O diálogo de Jesus com Pilatos que escutamos no evangelho deste domingo é a segunda cena do processo de Jesus diante de Pilatos. Desta cena gostaria de reflectir sobre três afirmações de Jesus: “é por ti que o dizes, ou foram outros que to disseram de mim?”, “o meu reino não é deste mundo” e “é como dizes: sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade.”

Como resposta à pergunta de Pilatos “Tu és o rei dos Judeus?”, Jesus responde: “É por ti que o dizes, ou foram outros que to disseram de mim?”. Pode acontecer que não poucas vezes façamos uma profissão de fé correcta e digamos que Jesus é rei. No entanto, é essa a nossa opinião pessoal? É isso que experimentamos na nossa vida? É Jesus o verdadeiro Senhor, o rei da minha vida e da minha existência? Muitas vezes dizemos que Jesus é o Senhor e o Rei porque é isso que ouvimos e nos ensinaram. Contudo, continuamos a ser escravos de outros senhores e de outros valores anti-humanos que nos roubam a dignidade. Quando eu afirmo que Jesus é o Senhor, o Rei devo estar a traduzir por palavras algo que experimento na minha vida, ou seja, a senhoria de Deus na minha vida concreta. As coisas seriam tão diferentes e melhores se o senhor da minha vida fosse verdadeiramente o Senhor Jesus!

Continuando o seu diálogo com Pilatos, Jesus afirma: “O meu reino não é deste mundo”. Tal afirmação de Jesus apesar de ser de fácil compreensão é de difícil aceitação. Todos sabemos que a forma de Jesus exercer a sua realeza é bem diferente da forma dos senhores deste mundo exercerem o seu poder. Se os senhores deste mundo procuram que os outros os sirvam e servem-se dos outros para alcançar a satisfação dos seus desejos e aspirações, o Senhor Jesus viveu servindo os outros até ao ponto de oferecer a sua vida na cruz. Compreendemos que foi assim que Jesus viveu a sua realeza. No entanto, é-nos difícil aceitar isto, porque não poucas vezes sentimo-nos tentados a viver a realeza de Jesus à maneira humana e não à maneira de Jesus. Quantas vezes é que nós, como membros da igreja, não procuramos o poder e a glória à maneira humana? “Não há nada mais longe da imagem do discípulo do Crucificado do que uma Igreja tranquila e segura, forte graças aos seus próprios meios e as suas influências” (Bruno Forte).

Ao finalizar o evangelho deste domingo, Jesus afirma que a sua missão como Rei é dar testemunho da verdade: “É como dizes: sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade.” Para S. João a verdade é a realidade de Deus. Assim sendo, Jesus é rei na medida em que manifesta nas suas palavras, gestos e atitudes quem é Deus. Mais uma vez fica bem claro que é na sua Paixão que Jesus dá o maior testemunho da verdade, ou seja, da realidade de Deus. Com efeito, “Deus é amor” (1 Jo 4, 16) e “a paixão de Cristo é a obra maior e mais maravilhosa do amor de Deus” (S. Paulo da Cruz).

A celebração desta solenidade não nos pode deixar indiferentes. Na verdade, reconhecer que o nosso rei é o do Senhor Crucificado leva-nos a viver um estilo de vida muito concreto. “Um reino eterno e universal: reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz” é assim que nos apresenta o reino de Deus o prefácio desta solenidade. A Igreja e cada um dos cristãos são chamados a construir este reino. Reconhecer a realeza de Cristo na cruz compromete-nos com a construção do reino. Não basta rezar no pai-nosso “venha a nós o vosso reino”. É necessário que eu aceite este reino na minha vida pessoal e assim o vá dilatando na vida social. 

É o Senhor crucificado e não outro o nosso rei. Isto desinstala-nos e leva-nos a estar no mundo de uma forma concreta. Aceitar a realeza de Cristo não é viver na lógica do poder mundano que escraviza e destrói mas na lógica da Cruz de Cristo: amor, serviço, perdão e dom da vida para a vida do mundo!

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista