
Salmo: Sl 125, 1-2ab. 2cd-3. 4-5. 6;
2ª Leitura: Filip 1, 4-6. 8-11;
Evangelho: Lc 3, 1-6.
A primeira parte do Evangelho que este II Domingo nos apresenta é uma contextualização histórica da pregação de João Baptista e do início do ministério de Jesus. Tal enquadramento não é só o resultado do evangelista “depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expô-los a ti por escrito e pela sua ordem, caríssimo Teófilo” (Lc 1, 3). Na verdade, este enquadramento histórico, oferecido pelo evangelista Lucas, tem dois objectivos bem precisos: mostrar que Jesus não é um mito mas uma personagem histórica que viveu num momento histórico e numa época concreta e que o acontecimento Jesus tem consequências na história.
O que celebramos em cada Natal é a encarnação do Verbo, o nascimento do Filho de Deus. A primeira parte do evangelho deste dia quer deixar bem claro a verdade da encarnação, de Deus se fazer homem. Lucas ao estabelecer um sincronismo entre a história sagrada e a história profana mostra que Jesus não é um mito ou uma fábula resultante de uma imaginação fecunda. Jesus é uma personagem histórica que viveu numa época e num lugar concreto. Por isso podemos afirmar como o autor da segunda carta de S. Pedro “De facto, demo-vos a conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, não por havermos ido atrás de fábulas engenhosas, mas por termos sido testemunhas oculares da sua majestade” (2 Pe 1, 16).
“Jesus não é uma figura evanescente, não é uma espécie de larva luminosa, não é uma entidade vagamente espiritual, não é uma ideia ou um mito; é, pelo contrário, uma realidade histórica, penetrada nos acontecimentos dos povos que tem laços com as datas, não só de Israel, mas também com as mesmas do império Romano. Ele é uma pessoa que percorreu o nosso horizonte terreno e a sua presença e a sua Palavra foram como uma semente que caiu e cresceu na terra e na história para transformá-las e salvá-las” (Ravasi).
É exactamente para mostrar que Jesus tem efeitos em toda a história humana que o evangelista Lucas enumera sete personagens: Tibério, Pôncio Pilatos, Herodes, Filipe e Lisânias, Anás e Caifás. Ao enumerar os nomes destes governantes e sumos-sacerdotes Lucas tem um objectivo bem preciso. Já sabemos que o número sete é o número simbólico da totalidade. Assim sendo, ao enumerar estas sete personagens, Lucas quer dizer que a totalidade da história participa no acontecimento salvífico que vai ser narrado no seu evangelho. Jesus viveu num tempo e num lugar histórico concreto mas a sua pessoa e mensagem tem consequências universais.
Assim sendo, estes dados cronológicos que Lucas oferece no início do evangelho deste dia não se limitam a dar-nos informações que permitam estabelecer o início da vida pública de Jesus. Na verdade, “o ano décimo quinto vai, pois, de 19 de Agosto de 28 a 18 de Agosto de 29, ou, segundo o modo de calcular os anos de reinado em uso na Síria, de Setembro/Outubro de 27 Setembro/Outubro de 28” (Bíblia de Jerusalém).
Depois desta introdução histórica, o evangelho deste domingo apresenta-nos João Baptista, uma das figuras do Advento por excelência. Na verdade, a liturgia do Advento apresenta-nos a figura de João Baptista como aquele que proclamou a vinda do Messias e o mostrou já presente no meio do mundo. Além disto, a liturgia do Advento também apresenta a pregação, o convite à conversão deste percursor do Messias e que é uma condição para acolher a salvação que Deus nos quer oferecer.
O evangelho deste dia começa por apresentar a figura de João Baptista com a seguinte expressão: “foi dirigida a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto”. A expressão “foi dirigida a Palavra de Deus a” é a expressão típica que o Antigo Testamento utiliza para apresentar a vocação dos grandes profetas (cf. Jr 1, 1-4). Assim sendo, o primeiro dado que o evangelho deste dia nos oferece sobre João Baptista é que ele era um profeta, alguém a quem Deus confiou uma missão específica.
Também não deixa de ser significativo que a palavra de Deus tenha sido dirigida a João no deserto. Na verdade, o deserto é um lugar com uma forte carga espiritual para os israelitas, porque lhes recorda a caminhada da escravidão do Egipto à liberdade da Terra prometida, caminhada essa que os ensinou a confiar em Deus, a serem solidários e a desapegarem-se do supérfluo. Além disto, no tempo de Jesus, o deserto era o local para onde se retiravam aqueles que queriam evitar a hipocrisia de uma religião que se reduzia a práticas exteriores e repetir a experiência do êxodo. João Baptista foi um desses e foi no deserto que ouviu o apelo de Deus. À imagem de João Baptista todos nós temos de nos retirar ao deserto, temos de fazer silêncio, temos de nos retirar àquela solidão que é um distanciamento crítico relativamente aos valores e projectos humanos para assim escutarmos a voz de Deus e descobrirmos o que Ele pede de nós. Na verdade, não poucas vezes, a fascinação pelas coisas do mundo torna-nos insensíveis aos apelos divinos. Como João, neste tempo de Advento, devemos retirar-nos para o deserto do silêncio e do distanciamento crítico dos valores e projectos humanos para aí descobrirmos aquilo a que Deus nos chama.
Depois da sua vocação, João vai para as margens do Jordão e aí prega um baptismo de penitência para a remissão dos pecados. A região do Jordão era uma região bastante povoada. No entanto, a sua principal importância residia no facto de ser uma fronteira entre os diversos povos, fronteira essa que o Povo teve de ultrapassar quando vinha do Egipto para entrar na terra prometida. João ao convidar o povo a um baptismo de penitência para a remissão dos pecados está a convidar o povo a reviver a entrada na terra prometida, na terra da liberdade. Assim sendo, podemos concluir que a mensagem de João Baptista, à imagem da mensagem de Baruc na primeira leitura deste dia, é uma mensagem de alegria e de consolação: Deus oferece-nos a salvação. No entanto, para acolher esta salvação de Deus, a visita salvadora de Deus, a vinda do Messias temos de nos preparar mediante um baptismo de penitência, isto é, por uma conversão, por uma transformação da nossa mentalidade, do nosso pensar e do nosso actuar.
Em seguida, o Evangelista Lucas esclarece melhor esta missão de preparar o caminho do Senhor que é confiada a João Baptista, citando o Deutero-Isaias: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas; e toda a criatura verá a salvação de Deus” (Is 40, 3-5). “Preparar o caminho ao Senhor significa remover os obstáculos que retardam ou impedem a sua chegada ao coração do homem: indivíduos e colectividade. Deus não pode entrar onde há arrogâncias, orgulho (“alturas”), frieza, indiferença (“profundidades”). Há que eliminar as aspirações excessivas ou desregradas, a presunção, como também a preguiça mental e espiritual, os enganos, as tortuosidades e os embustes” (O. Da Spinetoli). É este o desafio que a liturgia da Palavra deste Domingo nos apresenta como missão para este Advento de preparação para a vinda do Senhor: abater os montes e colinas do nosso orgulho e altear os vales da nossa fragilidade. Mas não desesperemos, porque mais que conquista humana esta preparação é uma promessa de Deus e Deus está connosco neste caminho de preparação.
Assim sendo, neste II Domingo do Advento, acendamos a vela da preparação e peçamos ao Senhor que abata os montes e colinas do nosso orgulho e levante os vales da nossa fragilidade.
P. Nuno Ventura Martinsmissionário passionista
