
1ª Leitura: Gen 3, 9-15.20; Salmo: Sl 97, 1.2-1ab.3cd-4; 2ª Leitura: Ef 1, 3-6.11-12; Evangelho: Lc 1, 26-38
“Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”
Com estas palavras, dirigidas à Virgem Maria pelo anjo Gabriel, também nós nos dirigimos a Maria afirmando aquilo que a define: “cheia de graça”, cheia do amor misericordioso de Deus que a escolheu para ser mãe do seu Filho e que a tornou capaz de missão tão importante na história da salvação.
Em pleno tempo de Advento, tempo de preparação da vinda de Jesus, celebramos neste dia a Solenidade da Imaculada Conceição, ou seja, celebramos como Deus foi antecipando e preparando a vinda de Jesus a este nosso mundo há dois mil atrás na Palestina.
Para nós portugueses esta festa reveste-se de uma beleza especial. Na verdade, D. João IV, em 1646, mesmo antes da proclamação do Dogma, declarou a Virgem Imaculada como padroeira de Portugal.
A Imaculada Conceição é um dos quatro dogmas marianos (Maternidade Divina, Virgindade, Imaculada Conceição e Assunção aos Céus) que a Igreja professa e celebra.
Maria não é auto-referencial. Ela não se justifica a si própria. Maria é uma realidade complexa que só se pode dizer nas suas conexões. Ela só se pode dizer em relação à Trindade e à Igreja. Ela é Filha de Deus, Mãe de Cristo, Esposa do Espírito Santo e Mãe da Igreja. Como fragmento no todo e o todo no fragmento, Maria é a “micro-história” da Salvação, o Mistério da Salvação “concentrado”, como uma “Suma Teológica mínima”. Maria é a mulher ícone do mistério.
Se os dois primeiros dogmas marianos (Virgindade e Maternidade Divina) definidos no Concílio de Éfeso (431) são uma manifestação da verdade cristológica, os dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção de Nossa Senhora (Pio XII, 1950) são uma manifestação da verdade antropológica em chave teológica.
O dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora foi definido pela bula “Ineffabilis Deus”, no dia 8 de Dezembro de 1854, por Pio IX. Estávamos na época do modernismo, um tempo em que se exaltava o Homem na sua subjectividade e no seu protagonismo histórico até ao ponto de eliminar Deus e toda a possibilidade da Salvação divina. Vivíamos na época em que se reivindicava a total liberdade e que por isso desejava ser uma sociedade sem pais. Deus já não tinha lugar. Foram trágicas as consequências de tal atitude. Na verdade, como resultado de uma sociedade sem pais surgiu uma sociedade com tiranos que estiveram na origem das duas guerras mundiais e de vários genocídios.
Insurgindo-se contra esta falsa da ideia da glória do Homem a preço da morte de Deus, o Papa Pio IX, de acordo com o dado bíblico, com a tradição da Igreja e com o sentido de fé de toda a Igreja proclama que Maria, mãe de Jesus, em virtude dos méritos futuros da redenção de Cristo, foi concebida sem pecado original e cheia de graça. Assim sendo, reagindo contra a ideia de um homem árbitro absoluto do seu destino e artífice único do próprio progresso, o dogma da imaculada Conceição é a afirmação do primado absoluto de Deus na história da redenção que se manifesta de uma forma especial na história de Maria.
O homem só por si não é capaz de salvar-se, não é capaz de atingir a felicidade e uma vida com qualidade. Iluminam bem estas realidades as belíssimas páginas bíblicas que nesta grande solenidade são proclamadas.
Tudo começa no início e no início de tudo está a criação do mundo e do homem. Um Deus que ama e que por isso é capaz de dar vida e de criar. O livro do Génesis não pretende ser uma lição de história ou de ciências da natureza. Os primeiros 11 capítulos do livro do Génesis pertencem a um género literário chamado de mitos de origem. Estes capítulos pretendem ser uma narração que pretende explicar as realidades humanas. Assim sendo, mais do quer dizer como o mundo e o homem surgiram, o livro do génesis pretende afirmar que na origem da vida e do homem está Deus. No entanto todos sentimos a presença do mal neste mundo. Diante deste facto surge-nos a pergunta: se foi Deus que criou o mundo porque é que existe o mal? Se há um Deus bom e justo porque existe o mal? É a esta pergunta, de ontem e de hoje, que o autor sagrado responde na página de livro do génesis proclamada nesta celebração. Na origem do mal e da infelicidade não está Deus mas está o homem com as suas opções erradas e com o mau uso da sua liberdade.
Deus criou-nos livres, porque a liberdade é uma exigência do amor. Criou-nos por amor e com amor indicou-nos o caminho a seguir e com o mesmo soube retirar-se e dar-nos espaço na liberdade. É nesta liberdade e tentados por tantas serpentes que se sabem camuflar também que muitas vezes rejeitamos a vida e escolhemos a morte.
O nosso pecado, a ruptura da nossa relação com Deus tem consequências. A nossa relação com Deus e com os outros é alterada. Deus deixa de ser visto como alguém que cria e cuida e passa a ser visto como alguém terrível de quem se tem de fugir. O outro não é mais alguém em que eu possa confiar totalmente. O outro passa a ser um meio para alcançar os meus fins e por isso para me desculpar eu o acuso. O mundo, no qual eu devia viver em comunhão com Deus, tornou-se o lugar em que me escondo de Deus.
Deus actua neste contexto não como alguém que castiga mas como alguém que quer revelar a alteração provocada pelo mau uso da liberdade humana. Com a presença de Deus tudo torna-se claro. No entanto, o homem confessa o seu medo e a sua nudez mas não confessa o seu pecado. É aqui que está o problema. As perguntas de Deus não são acusatórias mas querem revelar a verdade. Deus quer ajudar o homem a abrir-se à verdade, a tomar consciência do seu pecado. Sem consciência de pecado não há possibilidade de salvação. A experiência de pecado é uma experiência da nossa própria debilidade. No pecado o homem é responsável, livre e consciente mas só até a um certo ponto. Há sempre algo em que nós também somos vítimas. Mas isto só se descobre na nossa relação com Deus.
Depois temos as sanções de Deus sobre o pecado. Mas isto é só aparente. O que Deus faz é constatar a realidade. A única sanção de Deus é sobre a serpente. É ela que é maldita e não o homem e a mulher. A maldição sobre a serpente também tem uma promessa: a serpente será vencida exactamente por um descendente da mulher que a serpente venceu e com a parte do corpo (calcanhar) que é mais propícia para ser atacado pela serpente. O judaísmo e o cristianismo vêem aqui a promessa messiânica. Deus promete que um descendente da mulher, o Messias, acabará com as consequências do pecado e inserirá o mundo numa dinâmica de graça.
E é assim que “quando chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de uma mulher” (Gal 4, 4). O evangelho desta celebração coloca-nos na presença do episódio da anunciação do anjo a nossa Senhora e da encarnação de Jesus.
São vários os elementos que este texto foi buscar emprestados aos relatos veterotestamentários da vocação. O convite à alegria, a presença do Senhor, a dúvida, a assistência do Espírito Santo são alguns dos temas presentes nesses relatos e que nos indicam que estamos na presença de um relato de vocação, eleição e missão.
“Ave (alegra-te) ó cheia de graça.” Tudo começa com a graça. A graça é a maneira de ser de Deus. Graça é o nome do amor de Deus. O nosso Deus é o Deus gracioso e gratuito, é aquele que nos embeleza. Outra não podia ser a maneira de Deus olhar para nós. Deus olha-nos sempre com amor e independente dos nossos méritos.
“Encontras-te graça diante de Deus.” A graça é algo reservado a Deus. Nada podemos fazer para a merecer ou para a pagar. A graça não se paga nem se merece. Apenas podemos agradece-la retornando à sua fonte que é Deus e estabelecendo entre Deus e nós um circulo de graça.
Maria é a cheia de Graça, é a cheia deste olhar benevolente de Deus que nos embeleza e que nos escolhe. Deus escolheu Maria para uma missão importante na história da salvação: “Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo”.
Mas a graça divina não retira a liberdade humana e por isso Maria mostra as suas dúvidas. Tais dúvidas não são uma falta de fé mas a afirmação da liberdade humana, que tem a capacidade de negar Deus, e a grandeza e o poder de Deus que apesar da fragilidade humana nos torna instrumentos da salvação.
A tais dúvidas o anjo garante a presença do Espírito Santo e da sua sombra. Aquela sombra da nuvem, presença de Deus, que acompanhou o povo de Israel na sua caminhada em direcção à terra prometida também estará com Maria.
“Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Maria na sua liberdade reconhece que Deus a escolheu com o seu olhar de graça e aceita, com disponibilidade, a escolha divina e manifesta a sua disposição de cumprir com fidelidade o projecto de Deus. Em Maria a graça de Deus e a liberdade humana conjugam-se perfeitamente. Em Maria não há espaço para a negação de Deus como no relato de Adão e de Eva.
Celebrar a festa da Imaculada Conceição é reconhecer a importância da graça de Deus na nossa história pessoal e no nosso percurso em direcção à felicidade. Celebrar a festa da Imaculada é colocarmo-nos na disposição de que na nossa liberdade cooperemos com a graça divina que nos embeleza e embeleza o mundo.
P. Nuno Ventura Martins
missionário passionista
