
«Reconciliai-vos com Deus. Este é o tempo favorável»
Iniciamos nesta quarta-feira o tempo litúrgico da Quaresma. O nome deste dia (quarta-feira de cinzas) indica o rito com o qual iniciamos a Quaresma e o sentido deste tempo.
As cinzas são o resultado de algo que é queimado pelo fogo. Assim sendo, o símbolo das cinzas fazem-nos lembrar a morte, a destruição, a caducidade e fragilidade humana. São um convite à penitência e à humildade. No entanto, a Quaresma é um caminho e não uma meta. A meta é a Páscoa do Senhor e nessa meta nós encontramos outros símbolos que nos ajudam a compreender o significado das cinzas. Na vigília pascal, encontramos os símbolos da água e da luz, símbolos de vida, da vida nova do Ressuscitado na qual somos enxertados pelo baptismo. Assim sendo, ao começarmos a Quaresma, com o símbolo das cinzas, queremos reconhecer que é preciso morrer a tantas coisas que nos impedem de viver para podermos ressuscitar para uma vida de Homens Novos, Homens da Boa-Nova do Ressuscitado, Homens do Espírito.
O tempo da Quaresma, como diz S. Paulo na sua segunda carta aos Coríntios, é um tempo favorável para nos convertermos, é o tempo para nos reconciliarmos com Deus. Todos na nossa vida diária procuramos momentos favoráveis e oportunos para realizarmos as coisas. Os agricultores escolhem as épocas ideais para fazerem as sementeiras. Os turistas buscam os dias de sol para fazerem belos passeios. Também a nós o Senhor nos oferece um momento privilegiado para nos convertermos. Um momento para fazermos contas à vida. Na verdade, ao longo da nossa vida cristã nem sempre somos fiéis à nossa vocação baptismal, à vida nova do Espírito que recebemos e que se manifesta no amor a Deus e aos irmãos. Assim sendo, o próprio Deus, muitas vezes pela boca dos seus ministros, “embaixadores da graça de Deus”, convida-nos a olhar para a nossa vida, para vermos onde estamos a falhar na nossa vocação baptismal, para reconhecermos os nossos erros, para pedirmos o perdão de Deus e para voltarmos à vida, animados com a graça de Deus, dando testemunho com as nossas obras da Páscoa de Cristo.
No entanto, a Quaresma não é um tempo que tem o pecado no seu centro. No centro, como diz S. Paulo, está a graça, o amor de Deus que revela a nossa verdade e nos leva mais além. Neste tempo, não recebamos o amor de Deus em vão. É uma oportunidade única que se nos concede. É um momento oportuno. É um momento favorável. Desfrutemos este momento, onde o amor de Deus nos acompanha e nos ajuda, a morrer para o pecado e a viver para uma vida nova, a vida nova dos filhos de Deus.
A Quaresma é o tempo de nos reconciliarmos com Deus. Só reconciliados com Deus é que podemos ser felizes. Ninguém é feliz e vive uma vida com qualidade sozinho, em guerra com os outros. Nesta Quaresma, saibamos e esforcemo-nos por aproximar-nos de Deus que se aproxima de nós, independentemente da nossa situação, para nos salvar e dar a vida em abundância. Nesta Quaresma saibamos aproximarmo-nos de Deus e com Deus aproximemo-nos dos nossos irmãos.
No entanto, neste caminho de conversão nós somos convidados a obras de conversão, de mudança de vida. Obras de conversão porque descobrimos que muitos dos caminhos que seguimos não são caminhos de vida mas caminhos de morte e por isso temos de inverter o sentido da nossa marcha, temos de mudar de direcção.
Neste caminho de conversão em direcção à Pascoa do Senhor a igreja convida-nos a três atitudes. Atitudes essas que o próprio Jesus no evangelho de hoje recomenda aos seus discípulos e diz como se devem praticar: a esmola, a oração e o jejum.
Na mensagem para a Quaresma deste ano, o Papa Bento XVI refere-se nestes termos a estas três práticas:
“Através das práticas tradicionais do jejum, da esmola e da oração, expressões do empenho de conversão, a Quaresma educa para viver de modo cada vez mais radical o amor de Cristo. O Jejum, que pode ter diversas motivações, adquire para o cristão um significado profundamente religioso: tornando mais pobre a nossa mesa aprendemos a superar o egoísmo para viver na lógica da doação e do amor; suportando as privações de algumas coisas – e não só do supérfluo – aprendemos a desviar o olhar do nosso «eu», para descobrir Alguém ao nosso lado e reconhecer Deus nos rostos de tantos irmãos nossos. Para o cristão o jejum nada tem de intimista, mas abre em maior medida para Deus e para as necessidades dos homens, e faz com que o amor a Deus seja também amor ao próximo (cf. Mc 12, 31).
No nosso caminho encontramo-nos perante a tentação do ter, da avidez do dinheiro, que insidia a primazia de Deus na nossa vida. A cupidez da posse provoca violência, prevaricação e morte: por isso a Igreja, especialmente no tempo Quaresmal, convida à prática da esmola, ou seja, à capacidade de partilha. A idolatria dos bens, ao contrário, não só afasta do outro, mas despoja o homem, torna-o infeliz, engana-o, ilude-o sem realizar aquilo que promete, porque coloca as coisas materiais no lugar de Deus, única fonte da vida. Como compreender a bondade paterna de Deus se o coração está cheio de si e dos próprios projectos, com os quais nos iludimos de poder garantir o futuro? A tentação é a de pensar, como o rico da parábola: «Alma, tens muitos bens em depósito para muitos anos…». «Insensato! Nesta mesma noite, pedir-te-ão a tua alma…» (Lc 12, 19-20). A prática da esmola é uma chamada à primazia de Deus e à atenção para com o próximo, para redescobrir o nosso Pai bom e receber a sua misericórdia.
Em todo o período Quaresmal, a Igreja oferece-nos com particular abundância a Palavra de Deus. Meditando-a e interiorizando-a para a viver quotidianamente, aprendemos uma forma preciosa e insubstituível de oração, porque a escuta atenta de Deus, que continua a falar ao nosso coração, alimenta o caminho de fé que iniciámos no dia do Baptismo. A oração permite-nos também adquirir uma nova concepção do tempo: de facto, sem a perspectiva da eternidade e da transcendência ele cadencia simplesmente os nossos passos rumo a um horizonte que não tem futuro. Ao contrário, na oração encontramos tempo para Deus, para conhecer que «as suas palavras não passarão» (cf. Mc 13, 31), para entrar naquela comunhão íntima com Ele «que ninguém nos poderá tirar» (cf. Jo 16, 22) e que nos abre à esperança que não desilude, à vida eterna.”
Praticadas desta maneira a esmola, a oração e o jejum não serão gestos hipócritas mas a manifestação concreta do nosso desejo de morrermos ao homem velho e ressuscitarmos para o homem novo. Agindo desta maneira, rasgaremos os nossos corações e não os nossos vestidos, como dizia o profeta Joel na primeira leitura deste dia.
Que o rito da imposição das cinzas que fazemos neste dia acompanhado pelo convite “Arrependei-vos e acreditai no evangelho” nos ajude a entrar neste tempo favorável de conversão, de mudança de caminho em direcção à vida e à felicidade a que todos somos chamados. Sempre nos acompanha este Deus amoroso e compassivo, lento a ira e rico em Misericórdia. A Quaresma é um caminho em direcção à Pascoa, em direcção à terra da promessa. Neste caminho nunca estamos Sozinhos. Deus acompanha-nos e sustenta-nos. Descubramos este Deus que nos acompanha e sustenta o nosso peregrinar e deixemo-nos moldar pelo seu amor. Preparemos a Páscoa do Senhor para que haja Páscoa no Mundo!
P. Nuno Ventura Martins
missionário passionista
