Seminário da Santa Cruz dos Missionários Passionistas
Avenida Fortunato Meneres, 47
Santa Maria da Feira, Portugal
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Ano A – XVI Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Sab 12, 13. 16-19;
Salmo: Sl 85, 5-6. 9-10. 15-16a;
2ª Leitura: Rom 8, 26-27;
Evangelho: Mt 13, 24-43 ou Mt 13, 24-30.

 

No XVI Domingo do Tempo comum continuamos a ler o capítulo XIII do Evangelho de São Mateus que recolhe as parábolas de Jesus sobre o Reino de Deus. Através das parábolas, através destas comparações expressivas e interpelantes, Jesus quer proclamar as verdades ocultas desde a criação do mundo (cf. Mt 13, 35), ou seja, quer levar as pessoas a pensar e a procurar a verdade do Reino e a aderirem ao Reino de Deus.

O Evangelho de hoje (fórmula longa) apresenta-nos três parábolas sobre o Reino (a parábola do trigo e do joio, a parábola do grão de mostarda e a parábola do fermento) que nos ajudam a descobrir a realidade e dinâmica do Reino de Deus.

A parábola do grão de mostarda e a parábola do fermento, que também se podem encontrar noutros evangelhos sinópticos, ilustram o dinamismo do Reino. Em ambas as parábolas há uma grande desproporção entre a pequenez da situação inicial (o grão de mostarda que é a mais pequena de todas as sementes e o fermento) e o resultado final (uma árvore que abriga as aves do céu e uma grande quantidade de massa fermentada). Assim é o Reino de Deus: uma realidade com um início humilde, pequeno e modesto que é capaz de transformar o mundo. A parábola do grão de mostarda mostra-nos o contraste entre a pequenez do início e a plenitude do fim. Por sua vez, a parábola do fermento revela-nos que uma pequena quantidade de fermento é capaz de fermentar uma grande quantidade de massa.

Estas duas parábolas de Jesus devem-nos devolver a esperança. Na verdade, todos nós somos chamados a anunciar e a instaurar o Reino de Deus no aqui e agora da história. No entanto, são várias as dificuldades que se nos colocam. A primeira e a mais devastadora é o desânimo. Na verdade, muitos de nós desanimamos e quase desistimos da causa do Reino porque nos vamos dando conta que não são muitos, apesar de serem bastantes, aqueles que se empenham pela causa do Reino. Também desanimamos porque parece-nos que as forças contrárias ao Reino são mais fortes, mais sedutoras e mais produtivas que o anúncio do Reino. Quantos de nós já não deixamos sair um desabafo do tipo: “assim não vale a pena”! Na verdade, parece que o nosso trabalho de anúncio e vivência dos valores do Reino é abafado e destruído pelas forças contrárias ao Reino. No entanto, estas parábolas de Jesus devem devolver-nos a esperança. Apesar dos nossos esforços parecerem insignificantes como um grão de mostarda ou uma pequena quantidade de fermento eles tem uma grande capacidade de transformação. O Reino é uma realidade imparável. Saibamos semear as sementes do Reino na nossa sociedade e lançar o fermento do Reino na massa das nossas relações. Se todos fizermos isso veremos que nada, nem ninguém poderá deter a manifestação do Reino de Deus.

A outra parábola que o evangelho deste domingo nos oferece (e única se for lida a fórmula breve do evangelho) é a parábola do joio e do trigo. A imagem do joio no meio do trigo, nos nossos dias, tornou-se proverbial. Tal situação facilita-nos a interpretação e a compreensão desta parábola. Esta história contada por Jesus retrata um quadro normal da vida agrícola. Houve um senhor que semeou uma boa semente no seu campo. No entanto, um inimigo seu, enquanto todos dormiam, semeou, juntamente com o trigo, joio. Joio é o nome de uma erva daninha que designa as diversas ervas nocivas à agricultura. Os empregados do senhor, quando as plantas começaram a crescer, dão-se conta que juntamente com o trigo também cresce o joio e vão informar o seu senhor do sucedido e colocam-se na disposição de acabar no momento com essa erva daninha. No entanto, o dono tem uma reacção anormal. Ele não concorda com a solução apresentada pelos seus servos mas ordena que se deixe crescer, lado a lado, o trigo e o joio e só no momento da ceifa se faça a separação do trigo para o celeiro e do joio para o fogo.

Esta parábola de Jesus sobre o Reino de Deus mostra-nos que a lógica de Deus não é a lógica do homem; que a lógica de Deus não é uma lógica de destruição e exclusão mas de amor, misericórdia e tolerância. Deus é um Deus paciente e misericordioso que quer a salvação de todos os homens e por isso dá a todos os homens e até ao último momento a possibilidade da conversão.

Esta parábola do trigo e do joio torna-se mais clara para nós se a lermos à luz do exemplo de Jesus. Jesus conviveu com os pecadores, os publicanos e as mulheres de má vida. Jesus não exclui, como excluía o judaísmo do seu tempo, os pecadores. Jesus acolheu os pecadores e ofereceu-lhes a salvação, a oportunidade de se converterem. Tal atitude de Jesus era considerada um escândalo pelos fariseus que não aceitavam que os transgressores da lei pudessem fazer parte do povo de Deus. A lógica de Deus, a lógica do Reino é bem diferente da lógica dos homens. Apesar de Deus não aceitar e compactuar com o pecado, Ele ama, aceita e quer salvar o pecador. É por isso que lhe dá todas as oportunidades e até ao último momento para que ele se converta e viva. Porque, como afirma Jesus, Deus não quer a morte do pecador mas antes que se converta e viva.

Depois de termos descoberto que a lógica do Reino e de Deus é a lógica da paciência e da misericórdia que quer a integração do pecador e não a sua marginalização e condenação podemos perguntar que consequências práticas este ensinamento deve ter na nossa vida. Responde-nos a esta questão a primeira leitura deste domingo: “Agindo deste modo, ensinastes ao vosso povo que o justo deve ser humano e aos vossos filhos destes a esperança feliz de que, após o pecado, dais lugar ao arrependimento.”

O livro da Sabedoria foi o último livro do Antigo Testamento a ser redigido. Escrito por um judeu de língua grega este livro pretende ser um convite aos judeus mergulhados no paganismo e na idolatria a redescobrirem a fé judaica e um convite aos pagãos a deixarem o absurdo da idolatria e a aderirem ao verdadeiro Deus onde reside a verdadeira felicidade e sabedoria. Para atingir estes objectivos, o autor, na terceira parte do livro, onde a leitura de hoje se insere, faz a comparação entre os castigos que os pagãos sofreram e a salvação que está reservada aos justos. No entanto, e apesar de Deus poder ter eliminado rapidamente os pagãos deu-lhes várias oportunidades de conversão e de mudança de vida. Deus manifesta-se assim como o Deus justo, bondoso e misericordioso que não quer a morte do pecador mas que ele se arrependa e viva. Este comportamento de Deus é uma lição para Israel e para cada um de nós.

A primeira lição que este comportamento de Deus nos dá é que a justiça deve ser humana. A justiça no Antigo Testamento não corresponde à estrita aplicação da lei mas à fidelidade à essência. Se a essência de Deus é o amor a sua justiça é a revelação do seu amor misericordioso e salvador. Assim sendo, se a justiça de Deus é amor e perdão, todos nós devemos adoptar a mesma lógica de perdão, de misericórdia e de tolerância para com os pecadores. Na verdade, pode acontecer que muitas vezes para defendermos uma certa justiça cometamos uma injustiça maior.

A segunda lição que a atitude misericordiosa e paciente de Deus nos dá é a vontade de Deus salvar todos os homens. Depois de termos cometido algum pecado devemos sentirmo-nos tristes porque fomos infiéis à nossa relação com Deus. No entanto, não devemos cair no desespero. Deus quer perdoar-nos. E se estivermos verdadeiramente arrependidos ele perdoa-nos. O Deus cristão não é o Deus que está a espera que o homem peque para o castigar mas é o Deus que espera que o homem se arrependa do seu pecado para o perdoar e salvar.

Que o Espírito Santo, que vem em nosso auxílio na nossa oração porque nem sempre sabemos o que devemos pedir, nos ajude a descobrir e assimilar esta lógica paciente e misericordiosa de Deus e nos dê a força necessária para semearmos a pequena semente do Reino na nossa sociedade e lançarmos o fermento do Reino nas nossas relações.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista