
Iniciamos, na passada quarta-feira, a Quaresma, um novo tempo litúrgico que nos conduzirá à Páscoa. Como todas as grandes festas precisam de preparação, a Igreja desde o séc. IV dedicou um tempo para a preparação da festa dá Páscoa que se fixou em 40 dias. Durante este tempo a Igreja convida-nos, a partir do Mistério Pascal, a prestar atenção a dois sacramentos: o Baptismo e a Reconciliação. Na verdade, era neste tempo que antigamente os cristãos se preparavam mais intensamente para receberem o baptismo e o perdão dos seus pecados.
Assim sendo, no tempo da Quaresma nós somos chamados a pensarmos se estamos a ser fiéis à nossa identidade de cristãos. O baptismo, sacramento pelo qual somos inseridos no mistério pascal de Cristo, é a nossa identidade. No entanto, nem sempre somos fiéis a esta vida nova que recebemos no baptismo. Assim sendo, a Quaresma é um tempo oportuno para avaliarmos a nossa vida e nos aproximarmos do sacramento da reconciliação, preparando-nos assim para a renovação das promessas baptismais que fazemos na Vigília Pascal.
Neste caminho de preparação, para que a Páscoa de Jesus aconteça realmente na nossa vida, a Igreja convida-nos a três atitudes concretas, atitudes essas que foram recomendadas pelo próprio Jesus (cf. Mt 6, 1-18): o jejum, a esmola e a oração. No entanto, estas práticas não devem ser gestos externos mas devem ser a expressão do crescimento da vida cristã. O jejum tem de ser sinal do exercício das virtudes da ascese cristã, ou seja, daquele esforço que fazemos contra as más inclinações e as tentações que tantas vezes temos. A esmola tem de ser o sinal da verdadeira caridade fraterna e não se limita a dar dinheiro. Muitas vezes nas nossas casas faz mais falta dar tempo e atenção que propriamente coisas. A oração deve ser o sinal daquela intimidade que devemos ter com Deus. No tempo da Quaresma devemo-nos esforçar por dedicarmos mais tempo à oração, à leitura da bíblia, à participação na eucaristia semanal e na via sacra… Só com Deus é que nos podemos converter.
O grande apelo que nós ouvimos na Quaresma e com o qual, através do rito da imposição das cinzas, iniciamos a nossa caminhada Quaresmal é “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 15).
Mas porque razão arrepender-se? Arrepender-se de que coisa? Terei eu necessidade de me arrepender? A liturgia deste I Domingo da Quaresma ajuda-nos a perceber a necessidade de reflectirmos sobre a nossa vida e de nos convertermos.
A primeira leitura, retirada do livro do Génesis, retirada do primeiro livro da bíblia, daquele livro que de uma forma poética e não histórica narra as origens, afirma que Deus criou o homem, modelou o homem como o oleiro e deu-lhe o seu alento. Deus criou o homem para a felicidade, como demonstra a imagem do homem a viver no jardim plantado no Éden. Para manter essa felicidade o homem deve permanecer fiel à lei de Deus. Cumprindo os mandamentos de Deus, o Homem é feliz e vive a felicidade.
No entanto, ante este quadro tão belo surge-nos a pergunta: é o mal como aparece? Qual é a razão da infelicidade?
O mesmo texto do Génesis, que pretende explicar as várias dimensões da existência humana, diz que o mal e a infelicidade são causados pela nossa desobediência aos mandamentos de Deus. Os mandamentos de Deus são caminhos de vida e de felicidade, caminhos de uma vida plenamente realizada e feliz.
No entanto, muitas vezes acontece que a tentação nos serpenteia a dizer que os mandamentos de Deus são um atentado à liberdade humana e algo que limita a nossa felicidade. Ante esta situação muitas vezes agimos contra os mandamentos de Deus, ou seja quebramos a nossa relação com Deus, com o próximo e connosco próprios e assim experimentamos a infelicidade do pecado. O pecado mais que o desrespeito de uma norma é algo que impede a minha verdadeira felicidade e realização pessoal.
Quantos de nós na busca da felicidade já não fizemos más escolhas e encontramo-nos infelizes? Ante esta situação não devemos ficar no desespero. Devemos, como o salmista dizer: “Tende compaixão de nós senhor porque somos pecadores”.
E Deus tem compaix ão de nós e oferece-nos a salvação. É a graça, é o amor de Deus que se revela em Jesus Cristo que nos salva, que nos dá a verdadeira felicidade. Como diz o apóstolo Paulo na sua carta aos Romanos: “a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a todos os homens.”
É este Jesus que encontramos no evangelho deste domingo a ser tentado como todos os homens. Por isto pode dizer o autor da carta aos Hebreus que, “não temos um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, pois Ele foi provado em tudo como nós, excepto no pecado” (Heb 4, 15). No entanto, a sua resposta não foi igual a que nós costumamos dar muitas vezes. Jesus conseguiu vencer a tentação do materialismo, do exibicionismo e do poder, ou seja, conseguiu vencer a tentação de prescindir de Deus da sua vida.
O relato das tentações de Jesus segundo São Mateus é um aprofundamento do relato de Marcos e apresenta Jesus em relação com Israel. Assim como Israel foi tentado na sua peregrinação em direcção à terra prometida, assim também Jesus é tentado. O ambiente (deserto), o tempo (40) e as provas (3) são paralelos. A tentação de Jesus de transformar as pedras em pão corresponde à prova da fome a que Israel foi sujeito e à consequente murmuração do povo eleito à qual Deus respondeu com o maná (cf. Ex 16; Nm 11). A tentação diabólica de Jesus se lançar abaixo do pináculo do templo para assim desencadear o milagre corresponde à sede do povo e à consequente murmuração do povo a Moisés contra Deus (cf. Ex 17, 1-7). A promessa feita a Jesus da dádiva de todas as nações se Ele adorar Satanás corresponde à tentação do povo de Israel de substituir o verdadeiro Deus pelo ídolo do bezerro de ouro (cf. Ex 32) ou pelos deuses de Canaã (cf. Ex 23, 20-33; 34, 11-14). No entanto, se o povo de Deus caiu nestas provas, Jesus alcançou a vitória porque se manteve fiel ao projecto de Deus.
A afirmação que Jesus foi tentado demonstra que Jesus no âmbito da sua liberdade sente a tentação de dizer não ao projecto de Deus. O messianismo político aparece mais atraente que o messianismo da obediência profética. Na verdade podemos fazer corresponder as três tentações de Jesus aos diferentes tipos de messianismos: o messianismo dos bens temporais, o messianismo apocalíptico, e o messianismo político.
Contudo, Jesus não cede às tentações tão humanas que sofre. Jesus assume-se como o servo obediente que veio para fazer a vontade do Pai e não para coincidir com os desejos mundanos. “O Nazareno diz ‘não’ às sugestões do seu tempo; não procura o consenso fácil, não satisfaz as expectativas do homem mas subverte-as” (Bruno Forte).
Todos nós sofremos as mesmas tentações que o próprio Jesus sofreu, ou seja a tentação do materialismo, do exibicionismo e do poder, ou seja a tentação de prescindir de Deus na nossa vida. Como Jesus e com Jesus saibamos dizer não a essas tentações porque não nos conduzem à felicidade e à vida realizada. E se por fragilidade cairmos nessas tentações tenhamos a coragem de reconhecer o nosso pecado e implorar a misericórdia de Deus que nos perdoa e ajuda a caminhar.
Que esta Quaresma seja uma oportunidade para examinarmos a nossa vida e para fortalecermos a nossa adesão ao projecto baptismal que Deus tem para nós.
P. Nuno Ventura Martins
missionário passionista
