
Terminamos neste domingo a leitura do XIII capítulo do evangelho de São Mateus, onde são apresentadas as diversas parábolas de Jesus sobre o Reino. O evangelho deste domingo (fórmula longa) oferece-nos as três últimas parábolas deste capítulo: a do tesouro, a da pérola e a da rede.
A parábola da rede coloca-se na linha da parábola do joio e do trigo que lemos no último domingo. Com a imagem da rede que lançada ao mar apanha toda a espécie de peixes, Jesus recorda-nos a coexistência de maus e bons dentro da comunidade cristã. Deus é um Deus paciente e misericordioso que quer a salvação de todos os homens e por isso dá a todos os homens e até ao último momento a possibilidade da conversão. Deus não quer a morte do pecador mas deseja que ele se arrependa e viva. Assim sendo, Deus não tem pressa em condenar e destruir. Deus oferece à humanidade o tempo necessário para se amadurecerem opções e se realizarem escolhas definitivas. No entanto, esta parábola também sublinha o juízo de Deus. Mateus, com esta referência ao juízo final quer exortar a sua comunidade a optar decididamente pelos valores do Reino e a pôr em prática os valores de Jesus.
As outras duas parábolas, a do tesouro e a da pérola, são bastante semelhantes e revelam o valor e a importância que o Reino deve ter na vida dos discípulos. Na verdade, o Reino anunciado por Jesus, este “Reino de verdade e de vida, Reino de santidade e de graça, Reino de justiça, de amor e de paz”, não é algo de pouco valor e de pouca importância. O Reino de Deus é algo importante, é algo de muito precioso porque corresponde à nossa vocação e aspiração mais profunda de seguidores de Jesus, à nossa própria realização e felicidade.
É este Reino que é mais precioso que um tesouro e uma pérola preciosa que deve ser a nossa opção fundamental. E porque nos “prendemos” a Cristo e ao seu Reino somos capazes de nos “des-prendermos” de tudo. E isto só é possível porque quem encontra Cristo e o seu Reino não precisa de mais nada porque já possui tudo. Porque encontramos Cristo e o seu Reino somos capazes de renunciar e deixar a prisão em que nos mantinham os vários ídolos que nos prometiam felicidade mas que só produziam infelicidade e insatisfação. E esses ídolos têm nomes e rostos concretos. É o ídolo do ter, do poder e do prazer! No entanto, quem se “prende” a Cristo e aos valores do Reino é capaz de se “des-prender” dos ídolos, é capaz de deixar tudo porque encontrou o seu mais que tudo.
Várias vezes ouvimos a expressão “temos que deixar tudo! Só depois de deixarmos tudo é que podemos seguir Cristo.” Segundo, tal expressão primeiro está o desprendimento e só depois é aparece o seguimento de Cristo. Esta expressão não é uma mentira total mas é uma verdade entendida ao contrário. Em primeiro lugar não está o desprendimento. Em primeiro lugar está o “prendimento” a Cristo, está a descoberta do tesouro enterrado no campo e da pérola preciosa. Só se nos prendermos a Cristo é que seremos capazes de nos “des-prender” de tudo aquilo que nos afasta de Cristo e do seu Reino.
Na verdade, quem encontra Cristo e o seu Reino tem de fazer uma opção. Não se pode seguir a Cristo e aos ídolos do ter, do poder e do prazer. Para os cristãos, Jesus e o seu Reino são a opção fundamental. Tudo o resto deve ser colocado em segundo plano.
No entanto, são muitos aqueles que se dizem cristãos mas que não estão na disposição de deixarem os valores incompatíveis com o Reino. São muitos aqueles que vivem numa espécie de esquizofrenia religiosa. Quem se encontra verdadeiramente com Cristo vê a sua existência transformada e de bom grado passa para segundo plano todos os outros valores e interesses porque só Cristo e o seu Reino é que são capazes de encher o seu coração e a sua vida.
Se tomamos a sério estas palavras, neste momento devemo-nos estar a interrogar: será que eu já encontrei verdadeiramente Cristo e o seu Reino, o tesouro escondido no campo e a pérola preciosa? Na verdade, se Deus nos fizesse a mesma proposta que fez a Salomão (“pede o que quiseres”) o que lhe pediríamos? Por ventura, não pediríamos uma vida longa, riqueza, a morte dos nossos inimigos, …. ? Não pediríamos coisas que já devíamos ter relativizado e abandonado há muito tempo porque nos dizemos seguidores de Cristo?
Na primeira leitura deste domingo vimos que Salomão não pediu uma vida longa, nem riqueza, nem a morte dos seus inimigos. O que ele pediu foi um coração sábio que saiba distinguir o bem do mal.
O texto do primeiro livro dos Reis que foi proclamado é o chamado sonho de Gabaon e tem como finalidade apresentar o rei Salomão como o escolhido de Deus para governar o seu povo e justificar teologicamente a célebre sabedoria de Salomão.
Através de um sonho, forma privilegiada com a qual no Antigo Testamento Deus se comunica aos homens e lhes indica os seus caminhos, o texto apresenta-nos o rei Salomão, o primeiro rei de que herda o trono e não é escolhido directamente por Deus, como o escolhido por Deus. Salomão neste texto mostra a consciência que é um instrumento de Deus e intermediário entre Deus e o povo e por isso pede a Deus que lhe dê um coração sábio para poder governar o seu povo com justiça e a sua prece é atendida. Salomão aprece aqui como um exemplo de quem sabe escolher as coisas realmente importantes e de quem não se deixa distrair por valores secundários. E nós que coisa pediríamos a Deus? Qual seria a nossa prioridade? Seria a riqueza ou a sabedoria? Quem encontra Cristo e o seu Reino descobre que não é a vida longa, nem a riqueza, nem a vingança o mais importante. Quem encontra Cristo sabe que o mais importante é o Reino de Deus e os seus valores.
É por isso que a exemplo de Salomão todos nós temos de saber pedir a Deus a sabedoria necessária. Temos de saber ser sábios para fazermos as escolhas acertadas. Temos de ter “um coração inteligente que saiba distinguir o bem do mal”. E esta sabedoria outra não é que o Senhor Crucificado. O apóstolo Paulo afirma-o claramente: Cristo crucificado é a sabedoria de Deus (1 Cor 1, 23-24). Mas como afirma o mesmo apóstolo tal sabedoria é escândalo para o mundo. Temos de parar diante da Cruz de Cristo, temos de nos deixar fascinar pela sua beleza. Só contemplando a Cruz de Cristo, revelação por excelência do amor apaixonado de Deus, é que seremos conquistados pelo seu amor. Só contemplando a Cruz de Cristo é que compreenderemos a misteriosa sabedoria do grão de trigo que morrendo é capaz de dar fruto (Jo 12, 24).
Também a nós, depois de termos feito esta reflexão à luz da palavra de Deus sobre as nossas prioridades, Jesus nos interroga como interrogou os seus discípulos depois de ter contado as várias parábolas do Reino: “entendes-te tudo isto?”
O verdadeiro discípulo de Jesus é aquele que compreende as palavras de Jesus e esta compreensão não é algo intelectual mas vivencial. Para São Mateus compreender é prestar atenção e comprometer-se com aquilo que é ensinado.
Será que nós compreendemos verdadeiramente o “des-prendimento” pedido depois do “prendimento” a Cristo e ao Reino? Se tivermos compreendido isto, o Reino de Deus começa a tornar-se realidade no aqui e agora da história porque ao “des-prendermo-nos”, ao colocarmos de lado tudo o que não é de Deus damos lugar a um mundo mais divino porque verdadeiramente humano. No entanto, que ninguém se iluda só contemplando a sabedoria crucificada e pedindo a Deus o dom desta sabedoria é que seremos capazes de fazer a opção certa.
P. Nuno Ventura Martins
missionário passionista
